Etnomatemática na formação de professores para comunidades rurais no Brasil

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Por Filipe Santos Fernandes
Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil)

“Então o camponês descobre que, tendo sido capaz de transformar a terra, ele é capaz também de transformar a cultura; renasce não mais como objeto dela, mas também como sujeito da história.” (Paulo Freire)

Estudantes do curso de Licenciatura em Educação do Campo, habilitação em Matemática, da UFMG.

No início do mês de agosto, estudantes da habilitação em Matemática do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Belo Horizonte, Brasil) apresentaram o desenvolvimento de seus Trabalhos de Conclusão de Curso. São, ao todo, 20 trabalhos em andamento, sendo orientados por professores e estudantes de pós-graduação da UFMG. Para Gabriel, representante dos estudantes, esses trabalhos são de fundamental importância para a formação. “Pelo trabalho começamos a pensar práticas, saberes e fazeres que estão fortemente presentes em nossas comunidades. Ele nos permite uma imersão diferente nas comunidades onde vivemos, pois começamos a ter inquietações que antes não tínhamos, reconhecendo e valorizando nossas atividades”, comenta.

Os cursos de Licenciatura em Educação do Campo surgiram no Brasil em um cenário de reinvindicações de movimentos sociais, que buscavam políticas públicas para superar os históricos problemas da educação no meio rural. Diante dessa demanda, originou-se o Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciatura em Educação do Campo (PROCAMPO), uma política de formação de educadores especificamente voltada para as populações rurais. Os cursos gerados por essa política têm em comum a formação por áreas de conhecimento, e não por disciplinas; a Pedagogia da Alternância, que intercala tempos de formação nas Universidades e nas comunidade; e a defesa da Educação do Campo em processos educativos escolares e comunitários.

Na UFMG, o curso oferece quatro habilitações: Ciências da Vida e da Natureza; Línguas, Artes e Literatura; Ciências Sociais e Humanidades; e Matemática. O curso tem duração de quatro anos e o estudante precisa comprovar vínculo com o campo para ingresso. A cada ano, são abertas 35 vagas para uma das habilitações. A turma da habilitação em Matemática iniciou o curso no segundo semestre de 2016, tendo conclusão prevista para julho de 2020, quando apresentarão os resultados finais de seus Trabalhos de Conclusão de Curso. As temáticas dos trabalhos envolvem estudos históricos, educacionais e/ou socioculturais dos povos do campo, sendo a etnomatemática uma postura e uma ferramenta conceitual para o desenvolvimento de várias dessas investigações.

Em um conjunto de trabalhos, a etnomatemática é utilizada para a descrição de práticas vinculadas ao modo de vida camponês. Esse é o caso do estudante Fernando, que pretende descrever matematicamente as práticas presentes nas plantações das vazantes (ilhas formadas em períodos mais secos) no Rio São Francisco. Para Fernando, sua pesquisa permitirá “considerar os saberes e as experiências dos agricultores, além de registrar uma história do surgimento e organização das plantações de vazantes no Rio São Francisco na comunidade em que reside”. Outro trabalho, da estudante Lucina, investiga os saberes matemáticos associados ao prato, unidade e instrumento de medida muito utilizado por feirantes na comercialização de produtos derivados da mandioca. Há, ainda, trabalhos sobre a produção da farinha de mandioca e polvilho (Marisa e Rafaela), sobre a cultura do coquinho do cerrado (Dener), sobre a produção de silagem para pecuária leiteira (Cleuves) e sobre práticas de agricultura familiar (Saulo).

Além da descrição dessas práticas, a etnomatemática também é mobilizada para abordar questões da vida e da economia de comunidades rurais. A estudante Raquel, por exemplo, investiga como a formação de um Assentamento, processo de conquista da terra na luta pela Reforma Agrária, modifica os modos de vida de seus moradores, exigindo novas práticas matemáticas para o convívio em comunidade. Já Welisson estuda as relações na compra e na venda do polvilho, produto derivado da mandioca, tendo como subsídio a etnomodelagem para a compreensão das formas de negociação do produto. Outro trabalho, da estudante Dênia, aborda questões de renda, cultura e economia nas práticas de uma feira de agricultores.

De um modo geral, esses trabalhos têm mostrado a potencialidade da etnomatemática para evidenciar diferenças no espaço e no instante, permitindo-nos enfrentar cotidianamente questões de ordem sociocultural. Particularmente, essas pesquisas descrevem diferentes modos de vida, valorizando-os e situando-os como parte fundamental da construção do povo brasileiro. Mesmo em um momento de criminalização dos movimentos sociais por parte de ações do atual do Governo Federal, esses estudantes promovem através de suas investigações uma resistência ao contexto opressor, regulador e de perda de direitos que temos enfrentado no Brasil, mostrando-nos a importância do campo e de seus sujeitos na luta por uma sociedade democrática.

Educação do Campo: direito nosso, dever do Estado!